13 | A apressada
Para que vocês não caiam na ladainha de um jovem mórmon
Vez em quando, caminhando por essa pacata cidade do oeste irlandês, avisto lá em frente dois jovens. Nunca são os mesmos dois jovens, mas sempre são os mesmos dois jovens. Camisas brancas abotoadas, mangas curtas quando calha de ser um dia ensolarado, cobertas por paletos básicos cor grafite nos outros trezentos e sessenta dias do ano. Gravata, calça e sapatos sociais arrematam o outfit. No peito, broches pretos retangulares, grifados com os nomes de quem os carrega e da organização que aqui ou ali os trouxe: The Church of Jesus Christ of Latter-Day Saints (LDS, ou em português, A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias).
É nessa hora que atravesso pro lado oposto da rua, protocolo que não cumpri apenas nas duas vezes em que cometi o erro de parar pra ouvi-los e tive que partir pro plano B: um sorriso falso e alguma variação de “Não, obrigada… tô com pressa”.
A primeira foi um pecado de ignorância da minha parte mesmo. Não fazia ideia de quem eram ou o que queriam, mas um curto bate-rebate de diálogo foi suficiente pra disparar meu alarme contra lero-lero. Um papinho cansado, pra não dizer arrogante, de quem quer te convencer de ter achado a religião escolhida, a que possui todas as respostas, até para as perguntas que tu nem sequer perguntou.
A segunda foi há umas semanas, quando me bateu uma breve cegueira causada por pressa, que me impediu de identificar o traje típico do indivíduo e seguir o já citado protocolo. Achei que era apenas alguém perdido, precisando de direções, mas na realidade ele estava à procura de alguém perdido, precisando de direções. Fui logo tirando o fone de ouvido, como a cidadã prestativa que sou, mas o desquerido só queria me chamar para uma visita à igreja no próximo domingo. Não, obrigada… tô com pressa.


Além de odiar ser abordada no meio da rua por um estranho, existem dois agravantes que justificam meu modus operandi nessas situações e automaticamente me impedem de ser convertida. Primeiramente, acho inconcebível que alguém tenha achado promissor depender de uma faixa etária que não transmite um pingo que seja de credibilidade para atrair mais pessoas para sua organização. Quem em sã consciência está aceitando conselhos espirituais e ideológicos de um guri entre 18 e 25 anos? Se eu quiser ser feita de trouxa eu exijo pelo menos uma picaretisse mais amadurecida e refinada, sabe?
Acontece que nem o mais requintado dos jovens missionários anularia o segundo agravante, que destrincho abaixo como serviço de utilidade pública para minhas leitoras: o pouco que sei sobre como pode ser a vida de uma mulher mórmon.

A LDS, que tem mais de 17 milhões de praticantes ao redor do mundo (dos quais pouco mais de 1,5 milhão se encontram no Brasil), é uma das maiores subdivisões da religião mórmon, estabelecida nos anos 1820 em Nova Iorque, nos Estados Unidos, por um cara chamado Joseph Smith. Ele foi o primeiro profeta moderno dos mórmons, autor de escrituras sagradas que dizia terem sido enviadas a ele por anjos, apóstolos e até o próprio Deus, através de visões. Depois dele muitos mais vieram, alegando os mesmos dons e a mesma predisposição a posições de liderança e prestígio social, espiritual e econômico. Os pré-requisitos são simples: basta ter acesso direto ao ramal divino e, obviamente, ser homem.
Nos últimos anos, a religião mórmon parece ter alcançado uma nova onda de interesse dentro da cultura pop, com o surgimento de influencers que disfarçadamente vendem uma certa imagem do mormonismo através de conteúdos virais e conservadores (por exemplo, MomTok e trad wives), e também com o aumento de produções televisivas e de streaming sobre o tópico. Hoje meu foco é nesse segundo contexto, e em como meu entendimento do que é o mormonismo começou a se formar a partir das séries e documentários que assisti, que me proporcionaram uma visão crítica e mais realista do assunto, e não as mil maravilhas que influencers e jovens missionários tentam vender por aí.
1. Em Nome do Céu (Under the Banner of Heaven)
Minissérie | 7 episódios | 2022 | Disney+
Baseada em um caso real, essa série me ajudou a entender um pouco da origem do mormonismo e seus diferentes grupos, em especial o fundamentalista, conhecido por ser um tanto extremista. Ela retrata a investigação dos assassinatos de uma mulher e sua filha, em 1984, em que um dos detetives e os suspeitos do crime são mórmons. Uma das principais camadas dramáticas da trama é exatamente como o personagem do detetive é confrontado, internamente e externamente, por suas próprias crenças, ao ter que lidar com o formato mais violento que as ideias de sua religião podem tomar.
2. Terra Indomável (American Primeval)
Minissérie | 6 episódios | 2025 | Netflix
Ficção da Netflix que explora um conflito conhecido como Guerra de Utah, que se passou de 1857 a 1858, entre a recém-fundada LDS, liderada pelo então profeta vigente (e um dos maiores da história mórmon), Brigham Young, e o exército estadunidense. Na série, esse episódio que também envolveu outros grupos, como os próprios nativos da região, das tribos Paiute e Ute, e os “fora da lei” (ou cowboys), é o cenário da viagem de uma mãe e um filho fugindo do seu passado. Sua trajetória, marcada por amigos improváveis e obstáculos perigosos, ajuda a ilustrar não só a dinâmica volátil do Velho Oeste, mas o processo de “colonização” mórmon da terra que Young determinou sagrada: a região hoje correspondente à capital do estado de Utah, Salt Lake City.
3. Sobrevivendo ao Mormonismo (Surviving Mormonism)
Minissérie documental | 3 episódios | 2020 | Disney+
Heather Gay é uma das integrantes do reality show Real Housewives of Salt Lake City, onde, desde a sua estreia em 2020, ela conta suas experiências dentro e fora do mormonismo. Ela deixou a religião por não aceitar viver de acordo com as expectativas impostas pela comunidade, e em Sobrevivendo ao Mormonismo, ela conversa com outros ex-praticantes que compartilham traumas derivados das crenças e práticas tóxicas que acreditavam ser essenciais para serem mórmons perfeitos. A série é muito boa pra entender como a estrutura da LDS promove a exclusão e o silenciamento de qualquer pessoa que tenta apontar seus problemas, principalmente pra manter sua imagem de gente boa, inclusiva e moderna, sendo que promove, ou já promoveu, machismo, homofobia e racismo.
4. Sejam Dóceis: Rezem e Obedeçam (Keep Sweet: Pray and Obey)
Minissérie documental | 4 episódios | 2022 | Netflix
Chegaria a ser leviano da minha parte dizer que fiquei apenas revoltada com o caso retratado nesse documentário, sobre os escândalos criminosos envolvendo o grupo fundamentalista da LDS (FLDS). Esse é o lado mórmon conhecido por incentivar e permitir que homens, e apenas eles, pratiquem a poligamia, e vários de seus líderes e seguidores são acusados de praticar abuso sexual de menores, casamento e trabalho infantil, tráfico humano, e outros absurdos. A série mostra como um tal Warren Jeffs conseguiu tomar as rédeas de uma parte da FLDS, clamando ser o novo profeta, e fundar uma comunidade que ficou à mercê de sua crueldade por anos, até mesmo depois de ser preso por seus crimes.
5. Confie em Mim: O Falso Profeta (Trust Me: False Prophet)
Minissérie documental | 4 episódios | 2026 | Netflix
Essa é basicamente a continuação do documentário anterior, mostrando os desdobramentos da prisão de Jeffs e como o grupo continuou sem a presença física de seu líder. Uma ex-mórmon determinada a derrubar falsos profetas e seu marido cinegrafista se tornam investigadores improvisados de mais um caso perturbador em que meninas e mulheres são submetidas aos piores tipos de manipulação e abuso, praticados por um homem patético que se acha não só a última bolacha do pacote, mas também o profeta sucessor de Jeffs.
6. O Falsificador Mórmon (Murder Among the Mormons)
Minissérie documental | 3 episódios | 2021 | Netflix
Me irrita saber que todos os muitos problemas do mormonismo são, em parte, derivados da facilidade que homens têm de se aproveitar da ingenuidade e fragilidade alheia para o seu próprio benefício. Nesse caso real, essa sina vira uma infeliz ironia, quando dois assassinatos com bomba, ocorridos em 1985 em Salt Lake City, levam a polícia a investigar Mark Hoffman, um forjador que havia ganhado a confiança da LDS e se estabelecido como referência em artefatos e textos mórmons históricos.
Daqui do meu ponto de vista de mundo, essas histórias reforçam a ideia de que organizar-se a partir de uma ideologia patriarcal, que condiciona mulheres a serem figuras passivas de suas próprias vidas, é uma estratégia que serve um objetivo muito nítido: facilitar, legitimar e perpetuar o comportamento violento e predatório de homens. Quando tudo é justificado na visão do profeta da vez, e esse se manifesta unicamente através da figura masculina, é inquietante pensar na quantidade de mulheres e meninas que tiveram suas vidas destruídas por não serem incentivadas, ou até mesmo autorizadas, a desenvolver um pensamento crítico em relação ao que são limitadas a ser e aceitar.
Elas são treinadas para acreditar que sua principal função é ser um complemento de um homem. Elas devem ser submissas e aceitar o que a figura de um pai, marido, ou profeta diz ser melhor para elas e para suas famílias. Elas são valorizadas apenas por suas funções maternais e ensinadas a cultivar comportamentos e características “da natureza feminina”. E a partir do momento em que esses são os elementos que delimitam o que é uma mulher ideal dentro da realidade mórmon, não é surpreendente que o resultado seja um cenário propício para as diversas situações de abuso retratadas na maioria das produções acima.

É muito difícil mudar qualquer tipo de relação derivada de uma distribuição injusta de poder, ainda mais quando ela é reforçada por ensinamentos e regras considerados sagrados e ligados a ideais sobre moralidade. Então acho que conhecer e espalhar essas histórias, por mais que elas sejam pesadas e causem um desconforto gigantesco, é uma maneira de fazer jus às mulheres que quebram ciclos, compartilham suas vivências, expõem seus falsos profetas e, possivelmente, encorajam outras a fazer o mesmo - atos muito mais corajosos do que só atravessar a rua pra não ser incomodada.
Será que se eu recitar esse textão aqui da próxima vez que um missionário tentar me parar, eles desistem de mim? Tomara.
Apesar do título de hoje, a produção da Coadoria é lenta e esporádica, mas é de coração (e não de IA).
Se você chegou até aqui, obrigada por ler! Se gostou, deixa uma curtida e um comentário aqui embaixo, ou compartilha com os teus.
Até a próxima!










